O ouro está a desvalorizar: Correção ou início de uma tendência descendente?

A forte liquidação do ouro parece mais uma correção violenta do que o início de um mercado bear sustentado – mas expôs a fragilidade do sentimento nos máximos históricos, observam os analistas. Depois de ultrapassar os $5.600 por onça no início deste ano, o ouro caiu centenas de dólares em poucos dias, com a prata a sofrer uma queda ainda mais acentuada. A velocidade da reversão abalou os investidores, mas as forças que impulsionaram o ouro para cima não desapareceram de um dia para o outro.
Os preços continuam muito acima dos de há um ano, quando o ouro era negociado abaixo dos $2.800 por onça, sublinhando o quão esticada estava a valorização. O que importa agora é saber se a recente queda reflete um reajuste saudável após excessos especulativos, ou uma mudança mais profunda no ambiente macroeconómico que poderá limitar o potencial de valorização do ouro nos próximos meses.
O que está a impulsionar a queda repentina do ouro?
A subida do ouro até 2026 foi alimentada por uma rara combinação de medo, incerteza política e procura estrutural. Os bancos centrais acumularam ouro físico a um ritmo recorde, os investidores procuraram proteção face ao aumento da dívida dos EUA e os mercados questionaram a independência da Federal Reserve perante os repetidos ataques de Donald Trump à política monetária. O ouro valorizou mais de 90% em termos anuais, registando o seu melhor desempenho anual desde 1979.
A reversão foi desencadeada quando um desses receios diminuiu. A nomeação por Trump do antigo governador da Federal Reserve, Kevin Warsh, como próximo presidente da Fed, foi interpretada pelos mercados como um sinal de estabilização e não como uma ameaça. As preocupações com a independência dos bancos centrais abrandaram, o dólar dos EUA fortaleceu-se e a realização de lucros intensificou-se. Assim que os preços caíram abaixo de níveis técnicos chave, as vendas aceleraram à medida que as posições especulativas eram desfeitas.
Porque é que este movimento importa
O ouro já não é negociado como um ativo defensivo de movimentos lentos. A sua extrema volatilidade reflete o quão central se tornou na avaliação global do risco entre moedas e dívida soberana. Quando o ouro dispara, sinaliza uma profunda desconfiança nos sistemas financeiros e políticos. Quando colapsa, sugere que o medo pode ter sido exagerado.
Daniel McDowell, professor de ciência política na Syracuse University, descreveu a compra de ouro em períodos de instabilidade como uma resposta mais psicológica do que puramente racional. Essa distinção ajuda a explicar porque é que as reversões podem ser tão abruptas. Quando a confiança melhora, mesmo que ligeiramente, o ouro não desce gradualmente – reavalia-se de forma agressiva.
Impacto nos investidores, mercados e bancos centrais
Para os investidores, a queda foi uma lição de timing. Os fundos negociados em bolsa ligados ao ouro registaram fortes entradas à medida que os preços subiam, apenas para sofrerem rápidas saídas assim que a liquidação começou. A participação do retalho, especialmente em ouro físico e joalharia, disparou perto dos máximos antes de desaparecer com igual rapidez.
Os bancos centrais encontram-se agora numa encruzilhada. Embora o ouro continue a ser um dos poucos ativos soberanos sem alavancagem, a pressão fiscal pode levar alguns governos a liquidar reservas. Nigel Green, CEO do deVere Group, alertou que “a tentação de mobilizar reservas de ouro é real” quando a tensão política e financeira se intensifica. Qualquer venda significativa por parte de instituições oficiais aumentaria os riscos de queda.
Perspetiva dos especialistas: correção ou inversão de tendência?
Os analistas estão fortemente divididos. Um inquérito do Financial Times a onze estrategas aponta para um consenso de preço no final de 2026 próximo dos $4.600 por onça, abaixo dos níveis atuais mesmo após a queda.

A Macquarie prevê o ouro mais próximo dos $4.200 no último trimestre do ano, argumentando que a especulação ultrapassou os fundamentos.
Outros mantêm-se construtivos. O UBS acredita que o ouro ainda pode ultrapassar os $6.000 nos próximos meses, apoiado pelo risco geopolítico, desdolarização e cortes de taxas de juro esperados. Os mercados atualmente atribuem uma probabilidade de 87% de as taxas dos EUA se manterem inalteradas no curto prazo, com o primeiro corte provável mais para o final do ano. Um dólar mais fraco voltaria a reforçar o apelo do ouro.

Conclusão principal
A queda do ouro parece menos o fim do bull market e mais um reajuste brutal após excessos especulativos. As forças que impulsionaram os preços – dívida, geopolítica e desconfiança nas moedas fiduciárias – mantêm-se, mas o sentimento mudou drasticamente. Se o ouro retoma a subida ou entra numa fase de consolidação prolongada dependerá das taxas de juro, do comportamento dos bancos centrais e dos desenvolvimentos geopolíticos. Para já, a volatilidade é o preço da convicção.
Perspetiva técnica do Bitcoin
O Bitcoin prolongou a sua recente queda, aproximando-se do limite inferior da sua estrutura de preços mais ampla após quebrar uma fase prolongada de consolidação. O preço está a negociar próximo da Banda de Bollinger inferior, enquanto as próprias bandas permanecem expandidas, refletindo volatilidade elevada e pressão descendente sustentada.
Os indicadores de momentum mostram uma deterioração acentuada do momentum de curto prazo, com o RSI a mergulhar decisivamente em território de sobrevenda. A força da tendência mantém-se elevada, como indicado por leituras altas do ADX, embora os indicadores direcionais mostrem domínio descendente após a recente aceleração em baixa.
Em termos estruturais, o preço caiu bem abaixo da antiga área de consolidação em torno dos $90.000, com as zonas de resistência anteriores perto dos $107.000 e $114.000 agora significativamente acima dos níveis atuais.

Os resultados apresentados não garantem desempenhos futuros.